domingo, 18 de março de 2012

Let it be - Parte II


LET IT BE - PARTE II

A última sessão de gravação foi em 4 de Janeiro de 1970, quando Paul, George e Ringo encontraram-se para terminar "I Me Mine", de Harrison, que entraria em Get Back. Dois meses depois, as fitas de Get Back foram entregues para o produtor estadunidense, Phil Spector, "retrabalhar". George Martin já estava cansado das brigas e discussões dos Beatles e também achou que seria antiprofissional trabalhar naquelas fitas de má qualidade. Como Spector tinha produzido o recém-lançado single de Lennon, "Instant Karma", John decidiu pedir(sem autorização de McCartney), para Phil "dar uma olhada e ver o que podia ser feito".
Spector pegou uma "jam session", "Dig It", e outras conversas entre as gravações, alongou "I Me Mine", desacelerou e acrescentou cordas a "Across The Universe" e colocou cordas e coral em "The Long And Winding Road". "Get Back" também foi editada, com a parte em que Paul fala, como um bluesman, cortada. Além de produzir a mixagem toda do álbum final.
Seis faixas do álbum são gravações ao vivo (i.e. sem remix ou overdub posterior). Além das três canções gravadas ao vivo no telhado do prédio da Apple Corps., incluiam-se, "Two of Us", "Dig It" e "Maggie Mae", gravadas ao vivo nos estúdios da Apple, no porão do prédio da Apple. Enquanto as outras canções, "For You Blue", "I Me Mine", "Let It Be", "The Long and Winding Road" e "Get Back" foram gravadas nos studios da Apple, mas apresentam edições posteriores produzidas por Spector, tanto na mesa de som, e edições de splicings (i.e. cortes diretamente feitos na fita), como nas dublagens (i.e. overdubs) de vozes e instrumentos por músicos de estúdio. A 12º canção, "Across the Universe", era uma versão da gravação de ensaio original, feita em 1968, e mixada em velocidade mais lenta para álbum.
Spector remixou tudo e transformou Get Back em Let It Be. O álbum foi lançado em 8 de maio de 1970, paralelamente no mercado com o filme deste mesmo nome. Na Inglaterra, o álbum fora lançado pela Apple Records (e distribuído pela EMI), originalmente no formato de um LP de capa dupla de edição limitada num box-set, acompanhado por um livro muito elegante, cheio de fotos da gravação e meses após sendo relançado com uma capa de LP simples. Nos EUA, o LP foi lançado com a capa simples (não dupla, e sem o "box-set" com o livro de fotos) também pela Apple Records, mas como a United Artist estava distribuindo o filme com o mesmo nome, eles tinham o direito de distribuir o LP também. A Capitol Records (uma subsidiária da EMI) tinha direito de lançar compactos dos Beatles, nos EUA, e outras compilações, mas não obteve direito para lançar o Let It Be. Mas, em 1979, a Capitol/EMI comprou a United Artist, tendo então obtido os direitos para lançar o mesmo e o "A Hard Day's Night", o outro álbum trilha sonora de filme dos Beatles que a United distribuia..
Embora Paul tenha ficado insatisfeito com o produto final, em particular com "The Long And Winding Road"(Ele odiou o coral e o arranjo de orquestra que Spector colocou), John declarou, dez anos depois, durante uma entrevista para a revista Playboy, elogiando Spector, que demos a ele a pior quantidade de porcarias de gravações bem ruins, com um sentimento muito feio nelas, e ele foi capaz de fazer algo bom daquilo."
Eventualmente, os Beatles receberam o "Academy Award" (Oscar) de "melhor trilha sonora original com o Let It Be (filme), em 1970.
Diversas gravações feitas nas sessões de Get Back nunca foram lançadas oficialmente mas fizeram parte de vários álbuns piratas.

LET IT BE NAKED

Paul não soube da ação e pediu a Spector para refazer suas canções - mas não foi ouvido. Embora John tivesse gostado do resultado, Paul detestou-o, e em 2003 lançou o álbum que ele queria, Let It Be... Naked, sem todas as alterações e mixagens e com consultoria de George Martin. As conversas e "jam sessions" aparecem num disco extra, com 21 minutos: Fly on the Wall (Mosca na Parede).

Fonte: Wikipédia

Ubiratan Souza conta detalhes sobre os novos projetos


São Luís do Maranhão
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UBIRTAN SOUZA CONTA DETALHES SOBRE OS NOVOS PROJETOS

Samartony Martins

De passagem em São Luís desde o carnaval, o cantor e compositor Ubiratan Sousa que está radicado desde 1980 em São Paulo, está de volta à cidade para matar a saudade de amigos e familiares, além do lançamento do CD Visitação no dia 22 de março, às 20h no Teatro Arthur Azevedo, Centro.
O projeto musical produzido por ele, teve como missão registrar parte da obra do músico Benedito Etevaldo do Rosário, de 72 anos, “Biné do Banjo”. O multi-instrumentista autodidata, arranjador, produtor musical. pesquisador de folclore, professor de música, violão, cavaquinho, baixo, guitarra, banjo, bandolim, flauta doce e viola de 10, estudou harmonia com Ian Guest.
Hoje Ubiratan Sousa, que começou a sua carreira musical em 1962, ainda como músico amador está com mais de 700 composições, entre músicas gravadas e inéditas, de diferentes estilos que vão do clássico ao popular. Finalista em vários festivais de músicas produzidos pela Rede Globo como o Festival MPB-Shell, como arranjador da canção O auto do boi vagalume, de Mochel e Rosa Mochel e, do Festival dos Festivais com sua canção Tempo certo com Souza Netto, que Ubiratan Sousa sedimentou a sua trajetória musical.
Caminhando com o seu violão, companheiro inseparável entre as ruas de paralelepípedos e casarões coloniais da Praia Grande, o músico revelou em entrevista a O Imparcial como foi a sua adaptação nos primeiros anos em São Paulo; como está a sua vida pessoal e profissional; a sua ‘birra’ com a mídia brasileira e os seus projetos musicais para divulgar a sua música dentro e fora do país.

Quando você decidiu que seria a hora de “cortar o cordão umbilical” com São Luís?

“Isso aconteceu em 1980, após um convite do músico e compositor mineiro, Dércio Marques. Eu estava acompanhando Chico Maranhão como diretor musical em uma turnê que rodou por Teresina, Rio de Janeiro e São Paulo quando ele me viu tocar. Fui morar na casa dele. Tião Carvalho já estava morando no Morro do Querosene. Coincidentemente, em seguida, chegaram Mochel, Erivaldo Gomes e Manoel Pacífico. Morava todo mundo na casa de Dércio. Era muita gente junto. Tanto que a irmã dele chegou a nos expulsar de casa (risos).”

Você encontrou alguma dificuldade em se adaptar artisticamente em São Paulo?

“Não. Por incrível que pareça foi mais fácil do ponto de vista da conquista do espaço artístico. Fiz vários trabalhos no Teatro Lira Paulistana, dezoito apresentações no Programa Som Brasil da Rede Globo, como músico e como intérprete, entre outros projetos que apareciam. Só para você ter uma noção, a Rede Globo destinava 10% da sua programação para a cultura. Hoje, a cultura para Globo tornou-se um zero à esquerda. O que era importante para nós era preservarmos as nossas referências, nossas raízes mostrando a cara do Maranhão e ao mesmo tempo, adaptando-se a realidade daquela cidade, driblando as dificuldades financeiras. Mas isso, era um ponto forte para se obter o reconhecimento artístico mesmo que fosse para dizermos: ‘Eu sou do Maranhão. Nasci em um berço cultural!”.

E como foi para você “furar” esse cerco e começar a mostrar o seu trabalho?

“As coisas foram acontecendo por meio de parcerias de artistas como Saulo Laranjeiras, Almir Sater, João Bá, Renato Teixeira, Vicente Barreto e Priscila Hermell. Na verdade fazíamos parte de um time. Um fortalecia o outro convidado para participar de um projeto, shows ou algo parecido. Todo mundo buscava seu espaço. Mas o que me projetou mesmo foi o Festival dos Festivais, em 1985 com a canção Tempo certo uma grande parceira com o saudoso Souza Netto.”

Então o Festival dos Festivais abriu muitas portas profissionais para você?

“Sim. Ao longo de minha carreira fui estabelecendo parceiras com grandes nomes da música com artistas como Dominguinhos, Alcione, Hermeto Pascoal, Vânia Bastos, Tetê Espíndola, Francisco Araújo, Nailor Proveta, Sebastião Tapajós, Hamilton de Holanda, Antônio Carrasqueira, Quinteto Sujeito à Guincho, Noite Ilustrada, entre outros. Fiz apresentação em shows e realizei workshops de música por todo o Brasil, menos no Maranhão. Estou com 60 anos e nunca fui convidado para fazer um workshop na minha terra natal. Eu tenho muito a contribuir, mas parece que o meu trabalho não interessa aos gestores culturais. Um dia quem sabe essa situação não se reverte.”

Fale um pouco sobre essa situação de “desconhecimento” do maranhense com relação ao trabalho que você desenvolve?

“Eu sou uma bandeira oculta do Maranhão em São Paulo. Quem é do meio artístico sabe o que tenho feito, mas o povo não sabe por que não tem acesso à minha obra. Todas as pessoas que são de fora se dão bem no Maranhão. Mas quem é da terra, não é valorizado. O Maranhão não dá valor aos seus valores porque há uma concentração da mídia no eixo Rio-São Paulo. Ela divulga só o que é do seu interesse. Esta é só uma das questões porque o Maranhão não mostra a sua cara. A situação envolve outros motivos. Sempre venho ao Maranhão para visitar minha família e amigos, e aproveito para fazer algum projeto que venha contribuir para a preservação dos grandes nomes da música maranhense que precisam ser registrados. E pouca gente sabe disso. De todos os estados do Brasil, o Maranhão é o único que joga o tapete e abre as suas pernas para quem tem competência ou não. Eu só lamento.”

Como você analisa o papel da mídia nesse processo?

“A mídia quer fazer um títere, um robozinho para atender seus desejos conscientes ou não. Ela se confronta com quem tem uma postura diferente baseada no equilíbrio. Hoje para um artista fazer sucesso tem que abrir concessão da sua vida pessoal e até de sua obra. Eu jamais fiz isso e jamais farei. Sou um homem sem preço. Jamais me venderei. Ninguém me compra. A obra do artista tem que ser respeitada. Pode um artista como eu, com uma postura como esta fazer sucesso?. Acredito que não!. Eu sou flexível, sensível, mas respeito o que faço. Sempre ficarei à margem neste processo. Continuarei produzindo em silêncio. Quem sabe, um dia depois que eu morrer, talvez venham descobrir o valor da minha obra como estão fazendo agora com a do músico e maestro Antônio Rayol.”

Você se sente magoado por isso?

“Falo isso sem mágoas. Eu estou apenas colhendo aquilo que plantei. Eu tenho plena consciência disso. Sou um idealista. Um ser em extinção. O que eu estou querendo dizer é que sou íntegro com a minha obra. Sou muito criticado pelo meu irmão que é um grande amigo, parceiro e meu maior crítico. Mas nem ele e nem ninguém vai fazer eu mudar de opinião. Como já disse, sou uma pessoa flexível e amável. Quando me dão a oportunidade, eu mostro quem sou. Eu vou ser compreendido quando morrer. Mas estou satisfeito e realizado com a minha carreira e com o caminho que escolhi. Só gostaria que a minha obra fosse assimilada pelos outros. O que posso afirmar é que eu estou feliz.”

Qual foi seu último trabalho?
“Meu último trabalho foi o CD Bruxaria, lançado por um selo independente em 2002 e faz parte de uma triologia. O primeiro foi lançado em sete capitais, e atuo só como compositor. O segundo pretendo lançar até o final do ano e nele estou como multinstrumentista. E o terceiro, que ainda não tem data para ser lançado, estou como arranjador.”

Você produziu vários trabalhos que ficaram na história da música do Maranhão.

“Como produtor musical, eu fui responsável pelos compactos duplos Velhos moleques em 1985, de Antônio Vieira, Lopes Bogéa, Agostinho Reis e Cristóvão. Produzi dez CDs da Cia Barrica de 1982 a 1985, além de CDs do Grupo Bicho Terra. Outro trabalho inesquecível foi o relançamento do disco Pregoeiros de 1988, relançado em CD em 2001 Antônio Vieira e Lopes Bogéa com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão; o CD Célia Maria, da grande sambista Célia Maria; Sotaque maranhense na arte de cozinhar em 2001, de Wellington Reis, além de outros trabalhos. Em todos participei como arranjador, regente e compositor.”

Como você tem trabalhado para divulgar a sua produção musical?

“Parte de minha obra está disponível no site www.free-scores.com onde podem acessar e baixar as músicas. Eu já postei 137 composições com arranjos e partituras das mais de 700 que tenho. Em um festival realizado pelo site a minha produção foi selecionada em cinco categorias onde fui finalista em duas modalidades e classificado também em outra com uma oitava posição. Em três meses, 128 países visitaram o meu link e mais de seis mil downloads foram feitos, Existem no mundo inteiro 191 países e nem todos tem acesso à internet. Então fico muito feliz com este resultado. Não é o Ubiratan que faz sucesso, mas a consistência de sua obra.”

O que significa o sucesso para você?

“O sucesso é uma fantasia...uma ilusão. O que eu quero dizer é que não vale apena o artista abrir mão de suas convicções para ter um sucesso passageiro.”

Fonte: Jornal o Imparcial, São Luís/MA, 14/3/2012

A pobreza é uma piada


A POBREZA É UMA PIADA

Urariano Mota

Como se sabe, os pobres são ridículos. Eles estão sempre metidos em situações de vexame, e o mundo inteiro para eles é um vexame, porque o mundo todo está sempre alguns palmos acima de suas posses. Então eles se metem onde não devem. Vão irrefletidos, insensatos, aonde não deviam ir. Aliás, só existe um lugar onde podiam e podem estar: debaixo e abaixo de uma vida confortável e digna. Imaginem o que é um miserável a tocar violino cercado pelo mangue, casebre e lama. E com uma carinha negra a dizer “eu não gosto deste movimento de Vivaldi”. Ridículo.
Essa reflexão me veio esta manhã ao ouvir a última piada de um pobre. Ele, o eterno a dar vexame, estava no aeroporto – lugar onde não devia estar, a não ser lavando o chão – e desprevenido foi à lanchonete e pediu uma coxinha. Ao se dirigir ao caixa, soube do preço: 7 reais. Então recusou a tantalizadora, tenra e crocante coxinha. Mas o melhor da piada, o maravilhoso desfecho vem agora. Ao se ver olhado por outros que estavam onde sempre estiveram, porque ambientes de luxo lhes é familiar, o pobre comentou num acesso de verdade:
- Muito caro. Isso é um Prato Feito no Piauí.
Ridículo. Ai dos pobres que cedem ao rompante, à generosidade da fala verdadeira. Então me veio à lembrança um dos meus personagens mais conhecidos, que adolescente viajou em um navio rumo à cidade maravilhosa, mais conhecida pelo nome de Rio de Janeiro. Pobre, suburbano, e de navio. Ah, foi uma sucessão de piadas e gags, que Chaplin jamais filmou, que Cantinflas com o seu rabinho à guisa de cinto nunca pôs no cinema. Na mesa do restaurante do navio, diante do garçom, e o jovem pede um abuso de culinária na sobremesa:
- Me dê um champanhe
E o garçom, sério como um Buster Keaton:
- O jovem se refere ao refrigerante.
- Sim, um guaraná champanhe da antártica.
Depois, mal refeito, pede um bife com macarronada. Perdoem, mas este autor não é um humorista. Pois vem o macarrão e o jovem, à sua maneira, tenta comer a iguaria que, feito de matéria elástica, não sobe completa à boca: desce em fios gordurosos pelo queixo. Então um senhor classe média, comovido e comovente, como todo bom cristão, insinua um fim àquele desespero gastronômico:
- Não sei em Pernambuco, mas nós, em São Paulo, comemos assim.
E se pôs a cortar antes o macarrão no prato, com a paciência de quem não vive com fome, que come com modos civilizados desde a corte francesa. Então o jovem, bom aluno, responde:
- Gostei do modo paulista de comer macarrão.
Todo o pobre é sempre uma piada. Ou ele é a empregada doméstica que fala a todos, sem cerimônia, que teve um câncer e amputou um seio, ou é um homem cego, em cadeira de rodas, que urina diante de visitas em plena sala. Os cegos não veem, vocês já percebem a piada. Todo pobre é ridículo. Dizem que eles, como os negros, ou fazem na entrada, ou fazem na saída. Então me lembrei de outra piada.
Um dia houve que um menino e sua mãe não tinham dinheiro nem comida para a principal refeição do dia. Comer, para toda a gente, mas principalmente para os pobres, é razão fundamental de viver. O pai do menino passara dois dias sem voltar para casa, e assim procedia porque se entregara a nova paixão. Estava de novo amor. Talvez, quem sabe, porque a mãe do menino estivesse uma senhora gorda, a disputar em programas de auditório no rádio o prêmio de igualar o peso de uma cantora ainda mais gorda. E, verdade, tantas vezes conseguiu igualar o peso da estrela que terminou por receber um prêmio de consolação, um corte de fazenda para fazer um vestido, que nunca fez, porque o vendeu. Para quê vestido, se comer era mais importante?
Mas assim como um temporal que chega sem aviso, um portador trouxe para a mãe, como prova de que o marido não fugia aos deveres do matrimônio, quando tudo era aflição, eis que um anjo lhe traz uma nota de duzentos cruzeiros. Sim, uma cédula que trazia no verso o Grito do Ipiranga. E o que ele mais lembra: mal o portador se ausentou, a mulher puxou o filho. E o que ele mais lembra, fundamente, como a sua mais íntima e guardada pele: a mãe pulava, rolava pela cama, e sua alegria era tamanha que chorava de felicidade. Nos olhos vermelhos, nas bochechas subitamente róseas, a alegria dela não se continha, pronta a gritar, a anunciar para a rua:
- Hoje temos almoço! Hoje temos galinha!
Como dizia antes, os pobres são ridículos.

Uma inglesa em Florianópolis


UMA INGLESA EM FLORIANÓPOLIS

Margrit Hamson

18h, dia de muito calor. Tudo parece derreter nessa ilha. Entro no coletivo urbano que, dizem, tem ar-condicionado. Não é verdade. O ar não funciona. É estranho para mim, pois de onde vim quando dizem que funciona, funciona. Mas, tudo bem, sou estrangeira, tenho de aguentar. Entro, mas não encontro lugar. Os assentos para idosos estão cheios, e nem são idosos. Eu tenho meus 50 e poucos, vá lá. Posso suportar ir em pé. Ainda assim, apesar da minha empáfia, mais fruto do porte que da realidade, eu sento no degrau, como vi outro nativos fazendo. Logo o ônibus vai enchendo, enchendo, e em poucos minutos existem pelos menos umas quatro bundas bem na minha cara. Desisto da idéia e fico em pé. Meu ar de lady inglesa é facilmente reconhecível pelo leque que coloco diante do rosto para evitar invasão e pela minha vestimenta, pouco adequada ao calor tropical. Olho para os lados e vejo todo mundo suando, com cara de poucos amigos. Imagino que aquilo ali é o cotidiano da maioria. Eu só estou por ali esporadicamente. Posso compreender porque não há sorrisos. Conversando com uma senhora que ia ao meu lado carregando várias sacolas de supermercado ela me contava que é todo dia isso: superlotação e sufoco. Fiquei horrorizada pois no meu país o transporte é uma coisa muito séria. A mulher riu ao meu comentário e perguntou que eu estava fazendo ali naquele ônibus lotado e mal-cheiroso. Contei-lhe minha história e deu tempo pois o maldito ônibus demorou uma hora e meia pra fazer 20 quilômetros até o Rio Tavares.
Nasci no condado de Suffolk, ao leste da Grã Bretanha, na adorável cidade de Ipswish, em pleno estuário do rio Orwell. Tive muito boa criação, mas, não sei se por conta do cabelo vermelho, meio incomum, acabei sendo bastante rebelde. Tanto que quando fui para a escola, minha mãe pintou as longas madeixas de negro: “para dar mais seriedade”. Pode ter sido a tintura, sei lá, o fato é que me tornei uma boa moça. E tão comportada que acabei professora no conhecido Eton College, aquele em que estudam os príncipes e filhos da nobreza. Fiquei lá por quase 25 anos, tida como uma pessoa impecável. Mas, o destino agiu e eu acabei praticamente expulsa há cinco anos quando descobriram que eu vivia um tórrido romance com um irlandês comunista. Isso foi imperdoável. Pode ter sido o cabelo vermelho que se manifestou apesar da tintura. Não sei. O que sei é que o tal romance foi o escândalo do ano. A descoberta de tudo se deu quando ele morreu e eu enlouqueci correndo nua pela cidade, arrancando os cabelos. Não suportava viver sem aquele homem. Robert Carson, um gigante celta.
E esse foi o começo da história que me trouxe a Florianópolis.
Expulsa da tradicional escola eu estava perdida na Inglaterra. Ninguém me daria emprego e quase aos 50 anos, que poderia esperar. Resolvi me matar. Mas, o convite de uma antiga aluna brasileira para vir ao Brasil me tirou da letargia suicida. Arrumei as malas e parti para o desconhecido mundo tropical. Foi um salto no abismo. De Eton para São Paulo, caí numa mansoneta nos jardins. Tudo muito chique, mas insosso. Meu cabelo voltara à cor natural e creio que era ele quem se rebelava. Já não suportava viver ali. Então conheci José, o jardineiro. Forte, espadaúdo, de riso largo. Caí de amores. Pega aqui, pega ali, em poucos dias eu já estava em suas mãos. Ele havia tempos queria migrar, voltar para sua velha cidade. Florianópolis. Então, juntamos as economias e viemos.
Moramos na Caieira, um bairro bem ao sul e eu ainda estou descobrindo a beleza e as agruras de viver por aqui. Mas, uma coisa já descobri. O transporte coletivo é um horror.

A última pantera


A ÚLTIMA PANTERA

Clóvis Campêlo

És a última pantera
a me assustar a memória,
o fim de longa história,
a derradeira quimera.

Temo o teu olhar escuro,
tuas garras afiadas,
e imagino-te sentada
a me esperar no futuro.

A ti não peço clemência,
sei que nada adiantaria,
quando vir a sonolência.

Peço-te apenas, no dia
da tua interveniência,
que seja breve a agonia.

Recife, 2010

sábado, 17 de março de 2012

Let it be - Parte I


LET IT BE - PARTE I

Let It Be é o décimo terceiro e último álbum lançado pelo grupo inglês de rock The Beatles. Gravado em janeiro de 1969, o álbum foi somente lançado em julho de 1970, após o disco Abbey Road (último disco gravado) e junto com o documentário de mesmo nome. Inicialmente se chamaria Get Back.
O único single foi "The Long And Winding Road", apesar de músicas como “Across The Universe” e “Let It Be” também se tornarem grandes sucessos.
Em 1969, Paul McCartney teve a idéia de gravar o álbum e documentário Get Back ("volte", em português) planejado para ser uma "volta às raízes". McCartney tinha grande vontade de ver os Beatles tocando ao vivo novamente, idéia que não agradava ao resto da banda, principalmente George Harrison que chegou a declarar que estava saindo da banda. John Lennon sem se importar muito ameaçou chamar Eric Clapton para o lugar dele, mas McCartney não concordou por achar que os Beatles sempre seriam os 4 e mais ninguém. Em comum acordo eles resolveram gravar um álbum como se fosse ao vivo, assim como foi feito no primeiro álbum dos Beatles, Please Please Me. Para isso até fizeram uma foto no mesmo local da capa de Please Please Me só que agora um pouco mais velhos. Lennon chegou a falar para George Martin num tom áspero: "Dessa vez queremos um disco honesto e não mais uma daquelas porcarias que você faz!". Em entrevistas posteriores, Martin diz que engoliu aquilo a seco mas pensou em responder que todos os discos dos Beatles eram honestos até aquele momento. Os ensaios iniciaram em mono, nos "Twickenham Studios" e, após uma breve interrupção devido Harrison ter deixado a banda temporariamente, concluiram-se com o retorno de Harrison junto a Billy Preston, com as gravações nos estúdios da Apple, em multi-tracks. Quando a Apple foi iniciada, os Beatles deram todo o dinheiro necessário para um "amigo charlatão" que Lennon conheceu na Grécia, chamado Magic Alex, para que construísse um estúdio que foi descrito por ele como o melhor estúdio possível. Porém quando George Martin e seus auxiliares técnicos foram inspecionar o local viram como “o maior desastre de todos os tempos. A mesa de mixagem era feito de madeira velha e um osciloscópio antigo, e os 72 canais prometidos por Magic Alex, eram só 16 canais”. E dizia mais: “O local não tinha paredes isoladas do som e era possível ouvir o barulho dos canos, das tubulações e o ronco do ar condicionado.” Mas mesmo assim os Beatles estavam dispostos a “ensaiar e gravar em casa”, com a produção de Glyn Johns, com Martin em segundo plano (o que o deixou visivelmente chateado pelo trabalho desonroso, já que ele nunca tinha ganho nenhuma fama ou fortuna pelo trabalho com os Beatles mesmo tendo ajudado a elevar eles ao patamar atual de melhor banda do mundo).
Os Beatles escolheram 7 músicas durante Janeiro de 1969 e tais gravações culminaram com uma performance live, em uma espécie de mini-show, no dia 30 de Janeiro, no telhado dos estúdios da Apple em Saville Row, para o filme do mesmo nome, até a polícia pedir para o grupo parar, visto o tumulto nas ruas. Foi a última apresentação pública dos Beatles, em 30 de Janeiro de 1969. Três das canções tocadas live, no telhado da Apple Studios, permaneceram no álbum final, Let It Be; elas são: "Dig a Pony", "I've Got a Feeling", e "One After 909", e vários diálogos gravados também no telhado aparecem entre as faixas do álbum lançado. No total, centenas de músicas foram tocadas e gravadas, durante as sessões de estúdio das gravações para o projeto Get Back/Let It Be. Além das originais lançadas no Let It Be, incluiam as canções todas do álbum Abbey Road, e várias canções que acabaram sendo lançadas nos projetos solos após a separação dos Beatles. Canções como, "Jealous Guy" (Lennon); "All Things Must Pass" (Harrison); "Teddy Boy" (McCartney), além de diversas outras covers interpretadas por eles no estilo de blues de doze compassos.
O álbum estava planejado para ser lançado em Julho de 1969, mas adiaram para Setembro, visto que queriam que este fosse lançado junto com o especial para a televisão---o filme sobre os bastidores da gravação do álbum.
Em setembro de 1969, adiaram o lançamento de Get Back, novamente; desta vez para dezembro, já que estavam com um novo projeto pronto para lançamento, às mãos, o Abbey Road", o último disco "oficial".
Em dezembro os Beatles pediram a Glyn Johns para produzir um álbum das gravações feitas para combinar com o filme---ainda não lançado então---, Get Back. E, durante o final de 15 de dezembro de 1969 até 8 de Janeiro de 1970, novas mixagens foram preparadas. A mixagem do álbum incluia, em adição, Across The Universe---um remix da versão original gravada no estúdio, em 1968)---, e I Me Mine, gravação toda original, mas com o mesmo arranjo da versão para o filme, e somente com Paul, George e Ringo tocando, uma vez que John já havia deixado a banda. Mas os Beatles não gostaram do trabalho apresentado por Glyn Johns.

Fonte: Wikipédia

Recife, cidade dos rios e sinais do além


O JOGO DO BICHO e a colônia judaica do Recife - Parte 6

Paulo Lisker, de Israel

RECIFE CIDADE DOS RIOS E SINAIS DO ALEM.

A cidade estava cheia de "sinais" daqui e do além com tudo que era bicho.
Todos tinham certeza absoluta que o bicho que sonhou irá "dar" (sorteado) na tarde de logo mais.
Tudo nesta cidade era "sinal".
O fósforo não acendeu na primeira "riscada" é sinal, o cigarro apagou no meio era sinal, aguaceiro fora de época (como no Recife houvesse época pra chover), cavalo cansado de puxar carroça cheia de areia para construção caiu no meio da rua, visita imprevista do fiscal da higiene.
Minha Nossa Senhor dos Prazeres, tudo era sinal anunciando o bicho que daria hoje de tarde.
O ar estava tão carregado de "bichos" e seus sinais do Além que se podia cortá-lo como se fosse uma torta de chocolate numa festa de surpresa.
Lembro-me duma discussão entre os três irmãos Bondiers, moradores na Ilha do Leite, tentando decifrar o que significava ter visto um calango verde da cor do musgo em cima do muro quando eles caminhavam para a sinagoga no Beco do Camarão, ali defronte do cinema aberto Parque.
Discutiam os três, que bicho este calango significava ao relacioná-lo com aqueles bichos do jogo. Ele não estava ali pra mostrar o seu lindo colorido (mimetismo, desta espécie) aos que passavam na calçada. Aquele calango representava algum bicho do jogo, não tenham dúvidas.
Começava a discussão, um dizia vai dar jacaré, o outro dizia é cobra, o ultimo dizia macaco!
Como macaco? Tu estás cego, não vês que é uma "lagartixa verde"? Como isso pode dar macaco seu "goilem" (leso, em iídiche), ou tu não vês um calango em cima do muro cheio de musgos na casa da vizinha? (Musgo é feito um lodo que vegeta nos muros nas épocas úmidas e quentes, muito comum no Recife).
Vocês é que são uns bestas, eu vi dona Maricota a vizinha gorducha, estendendo roupa molhada no varal no quintal! Com certeza dará macaco. Eu só arrisco hoje o meu dinheiro em macaco e por vias das duvidas, apostarei também no porco, os "sinais" indicam claro estes dois bichos. Vocês vão ver! Dois "Groisse hahumen" (grandes sábios, em iídiche, deriva do hebraico e sempre usada como um pejorativo para quem se crê inteligente), só por assistirem as conferencias do bicheiro Saraiva, aquele charlatão, pensam que são "hahumen".
Continuavam a discutir até chegar ao "Shil" (sinagoga) e ali nem mais uma palavra sobre coisas fúteis como o jogo do bicho. Davam todo respeito ao senhor Lemle (o Gabé, responsavel pelo bom funcionamento da sinagoga. Palavra idiísh, derivada do hebraico "gabai") que dirigia as rezas do "minian" (no mínimo dez homens presentes para iniciar a sessão de reza diária) e que nem de longe permitia conversas mundanas.
Porém a conversa que se ouvia em toda a cidade, ricos e pobres, donos de comercio e empregados e até mendigos era sobre o jogo do bicho.
Este jogo se tornou o último reduto que crise econômica nenhuma derrubava.
Outro sinal positivo foi quando os judeus entraram na "jogada" (participar, derivado do futebol).
Diziam nas ruas e esquinas de conversa da Boa Vista: Se judeu está jogando e se tornou aficionado é sinal que é um bom negocio. Eles devem ter desvendado o "macete" (o método) ou se tornaram amigos dos "donos do jogo" e nem precisam adivinhar!
Ali tem dinheiro fácil dando sopa, então vamos lá nós também.
Com a participação dos judeus do Recife na sua grande maioria, aumentou mormente as apostas do dia e consequentemente a quantidade de dinheiro que rolava no jogo do bicho.
"Tu não sabes o sonho que tive esta noite, jogarei este bicho hoje e toda semana, vou ganhar um baú de dinheiro", dizia Marquito, satisfeito de si mesmo, gozava só em pensar no premio que imaginava receber.
Qual foi esse bicho compadre? Pergunta senhor Goldberg.
Ai "mehitn" (significa em iídiche cunhado, porém usado como "amigo do peito"), amigos, amigos, negócios a parte. Não revelo nem para o senhor nem para ninguém, só posso dizer que é um bicho grandão e peludo.
Já sei, já sei, tu vais jogar no urso, diz seu interlocutor.
Pois eu sonhei com um danado que me arranhou e faz miau! Nele eu vou botar dois mil réis, tu vais ver se não ganho um bom "pedaço" esta tarde.
Patrício, tu podes jogar no teu gato eu irei no urso, a gente se encontra na Portinha da Água Soda no fim da tarde e quem ganhar pagará a bebida, concordas?
Claro patrício, com muito gosto e se despediam com um aperto de mão.
Entre judeus um aperto de mão valia mais que contrato escrito e assinado por dez advogados e reconhecido no cartório. Pelo menos no passado foi assim.
Para surpresa de todos, naquele dia deu vaca.
Onde por todos os santos estavam àqueles interpretadores de sonhos, todos eles são meros "pernas de pau" (termo copiado do ramo futebolístico).
Cada um dos apostadores pagou a sua bebida sem reclamar a má sorte e continuaram amigos, sempre discutindo política mundial e os palpites diários para as próximas apostas no jogo do bicho.
Diziam os gozadores da comunidade, se os grandes estadistas europeus se ocupassem de jogar no bicho, evitariam a grande guerra mundial e o desastre que ela causara no mundo todo.
Vejam que importância capital era dada ao jogo do bicho na comunidade judaica do Recife, mas não creiam que o resto da população ficava muito para trás.

FIM DA PARTE 6
03/3/2012
(Todos os direitos autorais reservados)

As aventuras dos jangadeiros do Nordeste


AS AVENTURAS DOS JANGADEIROS DO NORDESTE

Elaine Tavares

Quem já viu uma jangada navegando suave no mar do nordeste certamente não sabe que este tipo de barco é genuinamente típico daquela região do Brasil, existindo apenas na pequena faixa do litoral de 2.600 quilômetros que vai do Ceará à Bahia. Nesse mar navegam 4.200 jangadas dirigidas por seres humanos que poderiam figurar entre os mais extraordinários da terra. Essa é visão do escritor Raimundo Caruso que vivenciou a luta diária dos jangadeiros durante seis meses, em pelo menos sete estados do Brasil. Junto com sua mulher Mariléia Caruso, Raimundo descortinou a história desses formidáveis navegadores, protagonistas de lutas homéricas, sendo que uma delas resultou numa conquista importante para todos os pescadores do país: a aposentadoria.
O resultado da pesquisa e das incontáveis entrevistas está no livro ”Aventuras dos jangadeiros do nordeste” no qual Caruso conta sobre as grandes viagens feitas pelas frágeis jangadas e seus incríveis condutores para o Rio de Janeiro e Buenos Aires, em busca de visibilidade para suas lutas. Ali se pode saber sobre o maior de todos os jangadeiros, mestre Jerônimo, que, decidido a mostrar ao governo brasileiro sobre a necessidade de os pescadores terem direitos assegurados empreendeu três arriscadas viagens para o sul, a bordo da sua inseparável jangada, fazendo o que nenhum outro jangadeiro jamais havia sonhado. Sem bússola, sem carta náutica, sem nada além dos seus conhecimentos empíricos da vida no mar, ele e mais três companheiros enfrentaram o mar e os perigos do sul para lutar por todos os pescadores do Brasil.
O livro composto por Raimundo Caruso é um tropel de emoções. Impossível não se comover com a louca pureza desses navegadores nordestinos que numa embarcação tão frágil conseguem garantir seu sustento no rarefeito mar do nordeste, pouco piscoso. Pela mão do escritor vão surgindo os personagens que se dizem na voz deles mesmos ou de seus velhos companheiros. Palavra nordestina, voz jangadeira, filosofia do mar. A bordo de suas jangadas, velas ao vento, esses homens se arriscam todos os dias em epopeias marítimas de tirar o fôlego, mas que para eles é só mais um dia de trabalho. Não falam das tragédias passadas: “é preciso saber ler o que vem, não o que já passou”, asseveram com sabedoria. E perscrutam o lá na frente em busca do peixe cotidiano, sempre de olho num bem-virá.
Uma das aventuras dos jangadeiros do Ceará é uma viagem feita até Buenos Aires que durou meses. Enfrentando um clima completamente adverso de suas paragens nordestinas, os jangadeiros tiveram de se amarrar à jangada para não serem arrastados pelas ondas geladas do sul. Nunca desistiram e chegaram ao porto de Buenos Aires onde seus irmãos pescadores os miravam com incredulidade a repetir: “imposible, imposible”. Esses homens mágicos estão todos dentro desse livro incrível que merece ser conhecido. Porque nos coloca diante desses heróis cotidianos, que fazem a vida valer a pena. E a escrita de Caruso, forte como a vida dos jangadeiros, nos conduz a esse mundo de belezas e nos comove até as lágrimas. O exemplo da luta desses homens do mar do nordeste, que se alçam ao mar com suas velas enfunadas, foi o que garantiu a aposentadoria que hoje todos os pescadores do Brasil podem desfrutar. Só isso já vale para se debruçar sobre essas histórias heroicas.
O livro é uma edição do autor, não está nas livrarias, coisas do absurdo mundo editorial que prefere promover lixo, mas pode ser adquirido por correio, em contato direto com o autor (R$ 15,00). Raimundo Caruso é escritor veterano, de obras importantíssimas com escritos sobre a Bolívia, a Nicarágua, a República Dominicana. Também escreve ficção e até ganhou o prêmio nacional “Cidade de Belo Horizonte”, com o romance Noturno, 1894.

Do cansaço ao canto


O compositor Antônio Maria
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DO CANSAÇO AO CANTO

Rivaldo Paiva

Aquele velho ditado diz que depois da tempestade vem a bonança. Tantas e tantíssimas frases viradas populares ainda causam reações interessantes, por isso variável – um inverso talvez. Uns se abrigam na moda da depressão – uma doença silenciosa e os atingidos são tratados como molengas, que não sabem “levantar o ego” e vai por aí. Infelizmente a maioria das pessoas que assim pensam e acompanham os seus são ignorantes, não procuram saber dos médicos como se comportarem para melhor entender os depressivos. Gente, ninguém quer ficar assim não. É a vida que levam. Então resolvi amainar essa “teoria” e dizer que todo esse mal não passa de um cansaço. Vejam bem, o nosso grande cronista Antonio Maria (Ô, ô saudade...) sintetizava ou escondia a sua depressão nas suas composições musicais ou em textos em que dizia se olhar no espelho e só via cansaço, pé chato, gordura, uma coisa ansiosa e insegura e com sono (...). Vejam, não é por menos que, às vezes rogo compreensão a vocês meus leitores insistentes que ainda têm sacos pra me aturar – minhas baboseiras e recados até irônicos. No entanto, me encanto em saber que digo a verdade e busco nos meus artigos ser o porta-voz de vocês que não possuem esse espaço. Não vamos pedir aos deuses riquezas e sim coisas para fazer. Como nos cansamos, principalmente quando cruzamos os sessentinhas! Assistimos agora as prodigalidades (?) das autoridades do governo ou coisa assim, que já se tornaram tão cotidianas que o povo já nem pode comparar as alegrias de um feijão na panela em fogão chamejante – comida de cheiro no ar – a zoada do rádio contando os contos do dia e as reclamações e comentários das domésticas sobre os crimes x e o z nos córregos, alagados e nos edifícios elegantes das orlas do Recife. Gente pobre, gente rica, pouco fina, só pra explicar. Aí, moribundos agonizam ouvindo as “condolências” otimistas dos padrinhos, empresários e políticos adjuntos ao choro vago e pingado, lúbrico, por entre umas lágrimas preparadas nas cozinhas das cebolas inconsoláveis – “Tá lá um corpo estendido no chão!” (J. Bosco e A. Blanc). Ninguém para velar, ninguém para secar, no entanto os bens materiais do defunto há muito estavam divididos com a própria família carpideira. Como sou um cansado dessas baboseiras, me entrego às novas, pois, por tudo que passamos e somos obrigados a aguentar – transito caótico (a maior culpa, desculpem, é dos motoristas daqui, que usam a faixa esquerda para andar lentamente (Alô amiga Fátima Bezerra, mande fazer blitz para ensinar esses retardados). Estresse também quanto à expectativa de um assalto, TVs com lutas UFC, Big Brother, Faustão, Hulk e noticiários de tragédias? Chega. Para tudo tem compensação e a minha foi maravilhosa (esqueci de tudo por enquanto). O meu netinho Henrique (1 ano e 4 meses), que chegou como o maior canto de um encanto. Nome de rei e neto de um avô abestalhado e feliz. Que mudança, hein?

PS – Nem tudo cansa, como ler um bom livro – minha amiga e colega de faculdade Wanessa Campos (do JC) é a dona mesmo do pedaço: “A Dona de Lampião” já faz fila nas paradas da Poty e Livraria Jaqueira. Que bom seu sucesso! Eu recomendo.

Todos os blues


TODOS OS BLUES

Clóvis Campêlo

Confesso que já descobri o blues eletrificado e entrando na maioridade, no final dos anos 60. E o primeiro bluseiro que me chamou a atenção e atingiu os meus ouvidos foi o albino Johnny Winter, o sivuca do blues. Gostava daquela guitarra lisérgica, com solos nervosos e ácidos, muito barulho. Aliás, em uma das suas frases mais marcantes ele diz exatamente isso, que todo blues deve ser sujo e barulhento. Ou seja, uma música de contestação cultural e comercial. Nada de concessões. Hoje, setentão e quase cego, Johnny ainda faz a cabeça de muita gente pelo mundo a fora, muito embora a sua música e o estilo de tocar tenha se tornado menos agressivo e mais melódico. Talvez a maturidade já esteja chegando para ele.
Depois, surgiu na minha frente um furacão chamado Jimi Hendrix. Se Winter era avassalador, Hendrix era (e ainda é) completamente revolucionário, levando o ouvinte a refazer todo o seu entendimento do que era o roque, o blues, o modo de se tocar uma guitarra elétrica. Seduzido por ele, eu sempre quis mais. Com Hendrix, não havia pedras no caminhos. Tocando, arriscava-se sempre em saltos mortais para cair sempre de pé, no local certo, na hora certa. Uma porrada nos nossos ouvidos numa hora em que o rock ameçava se institucionalizar.
Lembro que nos anos 80 fiz o “sacrifício” de levar o meu filho mais novo, Gabriel, na época ainda criança, ao Cinema São Luiz, no centro do Recife, para assistir ao filme He-Man. Gostei do filme e pirei mais ainda na sequência em que o herói enfrenta o Esqueleto numa loja de discos ao som de Purple Haze, de Hendrix. Inesquecível.
Depois descobri Muddy Waters, Howlin Wolf e o blues de Chicago. Um som intermediário e de transição entre os bluseiros mais antigos e tradicionais.
Daí para Robert Johnson foi um pulo, ajudado pela versão fantástica que os Rolling Stones deram a sua música Love it Vain, no disco Sticky Fingers. O som de Johnson já define o blues de três acordes que marcaria as gerações posteriores de bluseiros urbanos americanos e ingleses.
O mergulho final nesse processo de resgate e de conhecimento do blues mais antigo e tradicional veio com a ajuda dos amigos Osman Frazão e Bartolomeu Lima, com os quais, durante alguns meses, apresentei na Rádio Universitária AM do Recife o programa Boa Noite Blues.
Lá, nas noites das sextas-feiras, colocávamos no ar o som de bluseiros ancestrais, como Charley Patton, com o seu som monocórdio e retilíneo, que em muitos momentos nos lembravam os sons dos violeiros que circulam pelas feiras livres do sertão nordestino.
O blues mudou, modernizou-se e conquistou uma nova clientela, inclusive entre os jovens da ascendente classe média brasileira, com novas bandas, como o Blues Etílico e a Uptown Blues Band, que se arriscam a fazer fusões musicais inusitadas e belas.

Recife, outubro/2011