
São Luís do Maranhão
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UBIRTAN SOUZA CONTA DETALHES SOBRE OS NOVOS PROJETOS
Samartony Martins
De passagem em São Luís desde o carnaval, o cantor e compositor Ubiratan Sousa que está radicado desde 1980 em São Paulo, está de volta à cidade para matar a saudade de amigos e familiares, além do lançamento do CD Visitação no dia 22 de março, às 20h no Teatro Arthur Azevedo, Centro.
O projeto musical produzido por ele, teve como missão registrar parte da obra do músico Benedito Etevaldo do Rosário, de 72 anos, “Biné do Banjo”. O multi-instrumentista autodidata, arranjador, produtor musical. pesquisador de folclore, professor de música, violão, cavaquinho, baixo, guitarra, banjo, bandolim, flauta doce e viola de 10, estudou harmonia com Ian Guest.
Hoje Ubiratan Sousa, que começou a sua carreira musical em 1962, ainda como músico amador está com mais de 700 composições, entre músicas gravadas e inéditas, de diferentes estilos que vão do clássico ao popular. Finalista em vários festivais de músicas produzidos pela Rede Globo como o Festival MPB-Shell, como arranjador da canção O auto do boi vagalume, de Mochel e Rosa Mochel e, do Festival dos Festivais com sua canção Tempo certo com Souza Netto, que Ubiratan Sousa sedimentou a sua trajetória musical.
Caminhando com o seu violão, companheiro inseparável entre as ruas de paralelepípedos e casarões coloniais da Praia Grande, o músico revelou em entrevista a O Imparcial como foi a sua adaptação nos primeiros anos em São Paulo; como está a sua vida pessoal e profissional; a sua ‘birra’ com a mídia brasileira e os seus projetos musicais para divulgar a sua música dentro e fora do país.
Quando você decidiu que seria a hora de “cortar o cordão umbilical” com São Luís?
“Isso aconteceu em 1980, após um convite do músico e compositor mineiro, Dércio Marques. Eu estava acompanhando Chico Maranhão como diretor musical em uma turnê que rodou por Teresina, Rio de Janeiro e São Paulo quando ele me viu tocar. Fui morar na casa dele. Tião Carvalho já estava morando no Morro do Querosene. Coincidentemente, em seguida, chegaram Mochel, Erivaldo Gomes e Manoel Pacífico. Morava todo mundo na casa de Dércio. Era muita gente junto. Tanto que a irmã dele chegou a nos expulsar de casa (risos).”
Você encontrou alguma dificuldade em se adaptar artisticamente em São Paulo?
“Não. Por incrível que pareça foi mais fácil do ponto de vista da conquista do espaço artístico. Fiz vários trabalhos no Teatro Lira Paulistana, dezoito apresentações no Programa Som Brasil da Rede Globo, como músico e como intérprete, entre outros projetos que apareciam. Só para você ter uma noção, a Rede Globo destinava 10% da sua programação para a cultura. Hoje, a cultura para Globo tornou-se um zero à esquerda. O que era importante para nós era preservarmos as nossas referências, nossas raízes mostrando a cara do Maranhão e ao mesmo tempo, adaptando-se a realidade daquela cidade, driblando as dificuldades financeiras. Mas isso, era um ponto forte para se obter o reconhecimento artístico mesmo que fosse para dizermos: ‘Eu sou do Maranhão. Nasci em um berço cultural!”.
E como foi para você “furar” esse cerco e começar a mostrar o seu trabalho?
“As coisas foram acontecendo por meio de parcerias de artistas como Saulo Laranjeiras, Almir Sater, João Bá, Renato Teixeira, Vicente Barreto e Priscila Hermell. Na verdade fazíamos parte de um time. Um fortalecia o outro convidado para participar de um projeto, shows ou algo parecido. Todo mundo buscava seu espaço. Mas o que me projetou mesmo foi o Festival dos Festivais, em 1985 com a canção Tempo certo uma grande parceira com o saudoso Souza Netto.”
Então o Festival dos Festivais abriu muitas portas profissionais para você?
“Sim. Ao longo de minha carreira fui estabelecendo parceiras com grandes nomes da música com artistas como Dominguinhos, Alcione, Hermeto Pascoal, Vânia Bastos, Tetê Espíndola, Francisco Araújo, Nailor Proveta, Sebastião Tapajós, Hamilton de Holanda, Antônio Carrasqueira, Quinteto Sujeito à Guincho, Noite Ilustrada, entre outros. Fiz apresentação em shows e realizei workshops de música por todo o Brasil, menos no Maranhão. Estou com 60 anos e nunca fui convidado para fazer um workshop na minha terra natal. Eu tenho muito a contribuir, mas parece que o meu trabalho não interessa aos gestores culturais. Um dia quem sabe essa situação não se reverte.”
Fale um pouco sobre essa situação de “desconhecimento” do maranhense com relação ao trabalho que você desenvolve?
“Eu sou uma bandeira oculta do Maranhão em São Paulo. Quem é do meio artístico sabe o que tenho feito, mas o povo não sabe por que não tem acesso à minha obra. Todas as pessoas que são de fora se dão bem no Maranhão. Mas quem é da terra, não é valorizado. O Maranhão não dá valor aos seus valores porque há uma concentração da mídia no eixo Rio-São Paulo. Ela divulga só o que é do seu interesse. Esta é só uma das questões porque o Maranhão não mostra a sua cara. A situação envolve outros motivos. Sempre venho ao Maranhão para visitar minha família e amigos, e aproveito para fazer algum projeto que venha contribuir para a preservação dos grandes nomes da música maranhense que precisam ser registrados. E pouca gente sabe disso. De todos os estados do Brasil, o Maranhão é o único que joga o tapete e abre as suas pernas para quem tem competência ou não. Eu só lamento.”
Como você analisa o papel da mídia nesse processo?
“A mídia quer fazer um títere, um robozinho para atender seus desejos conscientes ou não. Ela se confronta com quem tem uma postura diferente baseada no equilíbrio. Hoje para um artista fazer sucesso tem que abrir concessão da sua vida pessoal e até de sua obra. Eu jamais fiz isso e jamais farei. Sou um homem sem preço. Jamais me venderei. Ninguém me compra. A obra do artista tem que ser respeitada. Pode um artista como eu, com uma postura como esta fazer sucesso?. Acredito que não!. Eu sou flexível, sensível, mas respeito o que faço. Sempre ficarei à margem neste processo. Continuarei produzindo em silêncio. Quem sabe, um dia depois que eu morrer, talvez venham descobrir o valor da minha obra como estão fazendo agora com a do músico e maestro Antônio Rayol.”
Você se sente magoado por isso?
“Falo isso sem mágoas. Eu estou apenas colhendo aquilo que plantei. Eu tenho plena consciência disso. Sou um idealista. Um ser em extinção. O que eu estou querendo dizer é que sou íntegro com a minha obra. Sou muito criticado pelo meu irmão que é um grande amigo, parceiro e meu maior crítico. Mas nem ele e nem ninguém vai fazer eu mudar de opinião. Como já disse, sou uma pessoa flexível e amável. Quando me dão a oportunidade, eu mostro quem sou. Eu vou ser compreendido quando morrer. Mas estou satisfeito e realizado com a minha carreira e com o caminho que escolhi. Só gostaria que a minha obra fosse assimilada pelos outros. O que posso afirmar é que eu estou feliz.”
Qual foi seu último trabalho?
“Meu último trabalho foi o CD Bruxaria, lançado por um selo independente em 2002 e faz parte de uma triologia. O primeiro foi lançado em sete capitais, e atuo só como compositor. O segundo pretendo lançar até o final do ano e nele estou como multinstrumentista. E o terceiro, que ainda não tem data para ser lançado, estou como arranjador.”
Você produziu vários trabalhos que ficaram na história da música do Maranhão.
“Como produtor musical, eu fui responsável pelos compactos duplos Velhos moleques em 1985, de Antônio Vieira, Lopes Bogéa, Agostinho Reis e Cristóvão. Produzi dez CDs da Cia Barrica de 1982 a 1985, além de CDs do Grupo Bicho Terra. Outro trabalho inesquecível foi o relançamento do disco Pregoeiros de 1988, relançado em CD em 2001 Antônio Vieira e Lopes Bogéa com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão; o CD Célia Maria, da grande sambista Célia Maria; Sotaque maranhense na arte de cozinhar em 2001, de Wellington Reis, além de outros trabalhos. Em todos participei como arranjador, regente e compositor.”
Como você tem trabalhado para divulgar a sua produção musical?
“Parte de minha obra está disponível no site www.free-scores.com onde podem acessar e baixar as músicas. Eu já postei 137 composições com arranjos e partituras das mais de 700 que tenho. Em um festival realizado pelo site a minha produção foi selecionada em cinco categorias onde fui finalista em duas modalidades e classificado também em outra com uma oitava posição. Em três meses, 128 países visitaram o meu link e mais de seis mil downloads foram feitos, Existem no mundo inteiro 191 países e nem todos tem acesso à internet. Então fico muito feliz com este resultado. Não é o Ubiratan que faz sucesso, mas a consistência de sua obra.”
O que significa o sucesso para você?
“O sucesso é uma fantasia...uma ilusão. O que eu quero dizer é que não vale apena o artista abrir mão de suas convicções para ter um sucesso passageiro.”
Fonte: Jornal o Imparcial, São Luís/MA, 14/3/2012