sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Soneto do Desmantelo Azul


SONETO DO DESMANTELO AZUL

Carlos Pena Filho

Então pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas
depois vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas

Para extinguir de nós o azul ausente
e aprisionar o azul nas coisas gratas
Enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas

E afogados em nós nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço

E perdidos no azul nos contemplamos
e vimos que entre nascia um sul
vertiginosamente azul: azul.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Poesia Bruta


POESIA BRUTA
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Angélica Teresa Almstadter
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esse oco que me apavora
retém os olhos nas oscilações
me procuro e só encontro indagações
que aos poucos me devora

engasgo com a rima mal feita
perdi as palavras no vão da porta
e suspiro por uma ou outra morta
nenhuma me é hoje a eleita

ainda no espelho me procuro
do estanho só vejo a transparência
que acusa de mim, eterna ausência
poesia latente em estado bruto

sufocada em revelações marginais
morro nos meus verbos mais abissais
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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Às vezes...


ÀS VEZES...

Às vezes eu sou Tarzan e grito;
mas quando sou primata, imito!

Às vezes sou o amanhã e espero;
mas quando sou o ontem, eu me desespero!

Às vezes eu duvido e sei de tudo;
Mas quando acredito, só me iludo!

Às vezes eu sou amor e canto;
mas quando sou ódio, sou espanto!

Às vezes eu sou divino e puro;
mas quando sou satã, eu sou monturo!

Don Regueira
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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Pernambuco na Seleção Brasileira


PERNAMBUCO NA SELEÇÃO BRASILEIRA

Júlio José Bezerra

Givanildo é o representante de Pernambuco na Seleção Brasileira de Futebol, convocada na noite de quarta feira, na CBD, para a Copa Atlântica. Para os pernambucanos foi feita justiça, pois desde há muito tempo que o atleta estava merecendo a chance. O Santa Cruz, tem, assim, o seu mais famoso jogador relacionado por Osvaldo Brandão, como um dos 18 jogadores da Seleção Brasileira.
Givanildo José de Oliveira, pernambucano, 27 anos, casado, é profissional do Santa Cruz desde 1969, onde iniciou sua carreira. Chegou para o Arruda em 1968, atuando como ponteiro direito dos juvenis, ascendendo à equipe principal no ano seguinte, a 31 de março, no jogo em homenagem à data da Revolução, como ponteiro esquerdo. No ano seguinte foi deslocado para a posição de médio volante onde permanece até hoje. Esteve na mira do Coríntias, Palmeiras, Cruzeiro, Atlético Mineiro, Vasco, Flamengo, Fluminense, Grêmio e recentemente até o Esporte Clube do Recife quis contratá-lo. Muito antes da sua convocação para a Seleção Nacional, o presidente José Nivaldo de Castro o considerou inegociável e imprescindível para a campanha deste ano.

A HISTÓRIA DE UM MENINO POBRE DE OLINDA QUE HOJE É UM CRAQUE NACIONAL

Givanildo, cujo apelido de clube é "Topo Gigio", uma vez que na época em que surgiu no futebol este personagem da TV era coqueluche do momento, disse que não ficou surpreso com a convocação, embora em outras oportunidades tenha se decpcionado.
Há muito tempo que se falava em Givanildo para a Seleção Brasileira e sempre que saia a relação, ele, ansiosamente, esperava seu nome na lista. Desta vez, como das outras, esperou. Mas sem a mesma ansiedade, a fimde evitar nova decepção.
Quando da convocação da seleção da Caixa Econômica, Givanildo foi preterido. De pernambuco seguiram Ramon, do Santa Cruz, Assis, do Esporte. Naquela oportunidade, Osvaldo Brandão, técnico da CBD, confidenciava a amigos que nada tinha a ver coma convocação e que "Givanildo não perdia por esperar".
Quando do jogo Santa Cruz x Cruzeiro, oportunidade em que o Cruzeiro venceu, Brandão em conversa com amigos fazia mil elogios ao futebol de Givanildo, considerando-o um jogador de "excepcionais qualidades".
Ontem a notícia estava confirmada: Givanildo na Seleção Brasileira. O jogador demorou a acreditar, pois afinal de contas "gostaria de saber da confirmação". Ele sabe que a luta será árdua, pois para o meio de campo, além dele próprio, Falcão e Paulo César, do Inter, Rivelino, do Flu, e Chicão, do São Paulo, foram convocados. Não viu injustiça no não chamamento de outros atletas e diz o por que: "Quando deixei de ser convocado não me julguei injustiçado. O Brasil tem muitos jogadores".
Na realidade, daquela "safra" de Luciano, Ramon, Fernando Santana, Rivaldo, Nivaldo, Cuíca, Givanildo, poucos ganharam projeção nacional. Ultimamente, apenas Luciano, ramon e Givanildo eram lembrados para as seleções e finalmente Givanildo teve a sua chance.
Não sendo possuidor de um porte atlético como Chicão, mas com um futebol elegante, técnico e eficiente, Givanildo poderá se firmar como otitular da posição e se garantir para futuras seleções, principalmente com vistas a Copa do Mundo de 1978, quando ele estará com 29 anos, mas em condições de continuar nos planos.
Givanildo, o ex office boy de Paulo Duarte, o garoto do juvenil que Valdomiro Silva quis arrumar um clube no futebol cearense e Gradim não deixou. O menino que Duque resolveu tirar da ponta esquerda para uma emergência e se consagrou como médio de apoio, é, agora, um dos 18 jogadores selecionados por Osvaldo Brandão para a Seleção Brasileira. O menino pobre da Vila Popular, em Olinda, cuja maior preocupação era dar uma melhor condição de vida a seus familiares, se vê agora no ponto mais alto imaginado por qualquer jogador de futebol: convocado para a Seleção Brasileira. De gênio impulsivo, de um comportamento estranho, pois ora se apresenta como um elemento introvertido, ora como um atleta que tem espírito de liderança, eis Givanildo, o craque do Santa Cruz na Seleção Brasileira.
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O COMEÇO DE TUDO

Quando o publicitário Paulo Duarte liberou seu modesto funcionário - um office boy - para participar dos treinamentos dos juvenis do Santa Cruz, não poderia imaginar que aquele garoto raquítico, de pernas finas, seria mais tarde um dos maiores craques do Brasil e agora integrante da Seleção Nacional.
Givanildo José de Oliveira morava na Vila Popular e ajudava sua mãe a manter uma família numerosa com o seu trabalho na agência de publicidade do conhecido ex radialista e ardente torcedor do Santa Cruz.
Paulo Duarte soube que seu funcionário batia bola pelo Condor de Olinda e então se interessou. Uma cartinha endereçada a Dario de Souza, na época teriandor dos juvenis corais. Givanildo foi uma, duas, três vezes e nada de ser aproveitado.
Paulo duarte então se irritou e foi lá. Disse a Dario que visse o menino em ação. Se ele servisse, poderia aproveitar. caso contrário, dissesse logo.
"O problema é que eu ficava privado de um funcionário, prejudicava meu serviço e nada dele ser aproveitado. Tive que apelar para meu prestígio pessoal".
Givanildo treinou e aprovou. Passou a treinar regularmente, colocando então um irmão seu para funcionar na agência do Paulo. Giva era o ponta direita e o seu nome - "muito grande", diziam alguns, "chegou a ser alvo de gozações".
Mas Givanildo continuou firme. Recebia uma ajuda de custo, mas via que àquela altura poderia seguir carreira como jogador de futebol. O Santa Cruz, em 1968, numa fase de preparação de novos valores, pode ser o trampolim para o sucesso.
Givanildo hoje, craque de renome nacional, jamais pode esquecer o seu ex patrão. A Paulo Duarte ele deve tudo. O seguimento a Gradim. Depois Duque. Mas isso já é outra história.

GRADIM DEU A CHANCE

Um dia Valdomiro Silva apareceu no Arruda. Vendo Givanildo, "com jeito" resolveu arrumar um clube para ele, julgando que o atleta não teria vez no Arruda. Um clube pqueno do Ceará, mas que daria um bom dinheiro para ter o atleta por empréstimo. E Valdomiro Silva foi falar com Gradim para tentar o empréstimo do jogador.
- Não seu Valdomiro. Não sai daqui, não. Esse m,enino vai ser titular. É só dar a ele o que comer.
Na realidade, naquela ocasião, Givanildo, um garoto raquítico, era igual a tantos outros nordestinos de origem paupérrima, sem nutrição. Mas Gradim via que "o garoto leva jeito". E levava mesmo.
No dia 31 de março, na Ilha do Retiro, numa partida amistosa diante do Bahia, Givanildo fez sua estréia. De ponta direita foi levao à posição de ponta esquerda. Deu um show. Fez uma jogada sensacional. Cuíca cruzou e ele fez 1x0. Resultado: o Santa ganhou por 5x2. Chegou a ganhar por 5x0. Naquela noite de sexta feira, num jogo de portões abertos, em 1969, Givanildo começava a sua fase futebolística. Como ponteiro esquerdo continuou, titular e revelação do ano. Saiu do time, na final, quando Gradim resolveu armar um ataque mais experiente. Foi a única vez que saiu da equipe. De lá para cá, a não ser por contusão ou suspensão, Givanildo José de Oliveira jamais deixou de ser titular.

DUQUE FEZ A MUDANÇA

Na decisão do campeonato de 1970, o terinador Duque, do Santa Cruz, estava com um problema para escalar o time. Não contava com um homem para a cabeça de área: Zito, Erb, Telino, todos que jogavam por ali estavam no "estaleiro". E àquela altura, às vésperas da "melhor de três" com o Náutico, o técnico teria que se haver com os elementos da casa.
- E do time, Givanildo era o que mais levava jeito. Derivaldo tinha feito boa campanha entre os aspirantes, atuando pela esquerda. Quem fala assim é Duque. Ele conversou com Givanildo, perguntando se havia condição de jogar naquela posição. Givanildo topou. Entrou no time, saiu da esquerda e foi para o miolo de campo. Nunca mais saiu. Foi bicampeão e tri com Duque e tetra com Evaristo Macedo. Seu nome já era famoso e os grandes clubes do Rio, São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul falavam em contratá-lo. Givanildo, o homem da camisa 11, jogava um futebol enorme no meio campo. Na fase do penta, com Paulo Emílio, ele se destacou mais ainda e então fez um pedido - "trocar de camisas". Deixaria a 11 para ser dono da camisa cinco. Naquele mesmo ano, com Zito voltando à forma, entrando na cabeça da zaga, Givanildo voltou a atuar como teórico ponteiro esquerdo. Mas ele voltou à posição que Duque o lançou. E estava definitivamente consagrado como um grande craque do futebol brasileiro.

Publicado no Diário de Pernambuco, Recife, em 16.01.1976.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Iemanjá


IEMANJÁ

Darcy Ribeiro

O acontecimento mais importante e mais belo da cultura brasileira nas últimas décadas foi a criação do culto à nova Iemanjá das praias. Ela era uma deusazinha de rios e riachos, também de pescadores, cultuada em São Paulo a 2 de março, e na Baihia, a 2 de fevereiro.
Transfigurada, Iemanjá se fez maior, muito maior que a Semana de Arte Moderna dos paulistas. Maior até do que tudo que nossa cultura erudita produziu. Tão grandiosa que se inscreveu no calendário para colorir a vida de todos os brasileiros.
Iemanjá surge como um culto de multidões que se espalhou logo por todas as praias do Brasil. Um eminente ministro da Cultura da França, convidado por mim para apreciar o culto, pediu que eu o transferisse para o Natal. Ignorante.
O criouléu do Rio foi que, na sua genialidade, arrastou o culto à Iemanjá para 31 de dezembro. Aposentou, assim, esse Papai Noel nórdico que viaja sobre o gelo num trenó puxado por viadões para pôr presentes pros meninos das casas que têm chaminé. É um culto alienado, bobão, que nos dias de maior sol de verão, em que contamos com tantas frutas maduras: manga, abacaxi, caju, abiu, jabuticaba, pinha, jaca, banana, graviola, etc., obriga os tolos a importar frutas meio ardidas para comemorar o nascimento do menino Deus e o ano novo.
Nosso Jesuscristinho brasileiro certamente não gostava disso. Queria uma festa como essa, que agora os negros do Rio e de todo o Brasil lhe dão, cultuando Iemanjá juntamente com a imensa brancalhada, que aderiu logo à nova causa.
À Iemanjá ninguém pede a cura do câncer. Nem Darcy. O que se pede é que o marido não bata tanto e que a namorada seja mais carinhosa. Iemanjá é uma deusa do amor. Deusa que transa, como as que os gregos criavam e agora os negros do Brasil ressuscitam.
Todo ano vejo, gozoso, mais de 2 milhões de pessoas, todas vestidas de branco, vindas de toda parte, caminhando alegres para a praia de Copacabana. Vão saudar Iemanjá. Às 23h30 desço eu, também vestido de branco, para atravessar a multidão e chegar até o mar. Lá, com os pés molhados, ungido por Iemanjá, faço meus pedidos rogando a ela que atenda minha fome insaciável de amor. Vejo, em espanto, a prodigiosa queimação de fogos com que querem desviar a atenção do povo. Na verdade, animam e embelezam a festa de Iemanjá, fazendo dela uma missa musculosa de todas as cores.
Vá, amigo, a alguma praia, vestido de branco. Entre na água e deixe Iemanjá beijá-lo. Você estará sagrado, de corpo fechado, atrativo ou atrativa como o diabo, o ano inteiro. Feliz ano novo, próspero e tesudo.

1º de janeiro de 1996
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domingo, 15 de novembro de 2009

Fêmea


FÊMEA
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Vilma Abubua
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Uma só alma
Muitas vidas.
Um olhar
Muitos mistérios.
Uma só mulher
Muitas faces e fases...
Muitos sonhos
Um corpo
Duas mãos
Dez garras
Dois pés
Duas asas
Mil instintos
Quatro patas.
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Antologia Poética 2007 dos Poetas Independentes. Tânia França organizadora - Recife: Ed. do Livro Rápido, pág. 135.

A Palma de Ouro subestimada


A PALMA DE OURO SUBESTIMADA
Publicado no Jornal do Commercio, Recife, em 15.11.2009
Anselmo Duarte merece mais respeito por ter realizado O pagador de promessas, único filme nacional a ganhar o prêmio maior de Cannes.
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Kleber Mendonça Filho
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Escrever que o Cinema Brasileiro perdeu Anselmo Duarte, aos 89 anos, passa apenas parte da ideia. O falecimento do ator paulista bem apessoado, astro de filmes da Vera Cruz e da Atlântida nos anos 50, marca também a morte do cineasta que entrou para a história da cinematografia no País como o único diretor brasileiro laureado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes com O Pagador de Promessas (1962). O filme foi o escandalosamente subapreciado no Brasil.
A trajetória de Anselmo Duarte revela muito sobre o cinema no Brasil. O feito de Duarte, até hoje sem igual, é normalmente narrado pelos que contam a história do cinema brasileiro com um tom de pesar, como se a Palma não devesse ter acontecido. Como se Duarte não fosse merecedor da láurea e como se O pagador de promessas revelasse um filme menor, indigno de reconhecimento que filmes superiores não tiveram.
Importante contextualizar o significado de uma Palma de Ouro. Como ocorre em outras cinematografias, a brasileira é claramente colonizada por duas culturas: a americana, via Hollywood, e a francesa, via crítica e Festival de Cannes. Entre os que fazem cinema no Brasil, pode-se dividir rudemente as tribos entre as que desejam o Oscar, as que desejam Cannes, e os que querem os dois.
Se o Oscar é uma espécie de reconhecimento universal e financeiro que agrega prestígio popular, é a Palma de Ouro de Melhor Filme no mais importante festival de cinema do mundo que estabelece o respeito intelectual e autoral para um artista no cinema.
Nos últimos 15 anos, o cinema brasileiro tem flertado com o Oscar nas indicações pontuais para “Filme Estrangeiro” via família Barreto (Fábio por O quatrilho, Bruno por O que é isso, Companheiro?), e com um aumento substancial no prestígio e no número de indicações através dos filmes de Walter Salles (Central do Brasil e Diários de motocicleta) e Fernando Meirelles (Cidade de Deus e O jardineiro fiel).
A família Barreto volta, nesse momento, a verbalizar sonhos de um Oscar (em 2011) através da nova biografia do presidente Lula, dirigido por Fábio Barreto, com estreia marcada para janeiro em centenas de cinemas.
Já em Cannes, os mesmos Salles e Meirelles têm chegado na mostra competitiva, onde expoentes do Cinema Novo parecem ter (ou ter tido) espaço cativo, como Ruy Guerra, Cacá Diegues, Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos.
Cannes foi espaço essencial para otimizar o impacto do Cinema Novo nos anos 60, onde filmes estandartes do movimento como Vidas secas, Deus e o diabo na terra do Sol e O dragão da maldade contra o santo guerreiro foram projetados com destaque, e premiados, em alguns casos. No entanto, nenhum deles levou a Palma.
1962 - Curiosamente, chega Anselmo Duarte com O pagador de promessas. O segundo filme desse homem amplamente reconhecido como bonito, quase 1.90m, “galã” do cinema comercial, natural de Salto, interior de São Paulo. Ele havia feito um sucesso popular de 1957, Absolutamente certo, sátira de costumes sobre a então jovem TV brasileira. De nenhuma maneira associado à estética e militância do Cinema Novo, Duarte leva a Palma de Ouro.
No júri, estava François Truffaut, que ajudou a escrever uma justificativa para o prêmio que, entre outras coisas, anunciava “um novo cinema no Brasil”. Há lendas e “disses me disses” sobre a percepção da vitória de Duarte. Seus colegas cineastas brasileiros teriam ficado “chateados” pelo fato de Duarte ter batido Luis Buñuel em Cannes, que competia com O anjo exterminador.
Mesmo recebido na época com uma volta pela cidade de São Paulo em carro aberto, como se tivesse conquistado a Copa do Mundo, Duarte amargou, ao longo dos anos, um rancor dos que acusava estarem morrendo de inveja e despeito. Vale observar alguma semelhança na percepção da crítica brasileira em relação a um outro filme (recente), também realizado por um diretor não engajado politicamente, que conquistou enorme sucesso em Cannes (passou fora de concurso): Cidade de Deus, de Fernando Meirelles.
O filme também rodou o mundo e tem em Meirelles uma figura não engajada, cuja origem é a publicidade em São Paulo, realizador que não frequenta os festivais de cinema no Brasil. O impacto do seu filme é tão grande quanto um certo ceticismo de parte da crítica brasileira, a julgar por toda a discussão em torno da “cosmética da fome” aplicada ao filme no mês do seu lançamento, em agosto de 2002.

IMPACTANTE

O pagador de promessas deu a volta ao mundo e ganhou uma enorme quantidade de prêmios (Karlovy Vary, Moscou, São Francisco, Edinburgo...). Com uma ginga de filme popular bem montado que parece apertar todos os botões certos, na hora certa, narra a história de Zé do Burro (Leonardo Villar), um “nordestino” que havia feito promessa para uma mãe de santo no sentido de salvar a vida do seu melhor amigo, um jumento.
Chegando em Salvador para pagar a promessa na Igreja de Santa Bárbara, ele é impedido pelo padre Olavo (Dionísio Azevedo), que rejeita a natureza “pagã” do compromisso. Isso causa racha entre religiosos (catolicismo e candomblé), povo, governo e imprensa, com forte menção à reforma agrária.
Adaptado do texto de Dias Gomes (desgostoso com o resultado filmado), O pagador de promessas, é inegável, resiste bem ao tempo. É ágil, envolvente e dotado de elementos berrantes da cultura brasileira não tão distintos assim dos enfocados pela marca oficializada do Cinema Novo. Um final emotivo e impactante parece selar o efeito geral do filme, destacando a força do povo sobre a própria religião e poderes públicos. É um belo final.
Se o Brasil zelasse pelo seu acervo de imagens, tanto como produto cultural como de mercado, O pagador de promessas, única Palma de Ouro do cinema brasileiro, seria um clássico nacional já restaurado, exibido na TV todo natal, como assim são exibidos sempre clássicos nacionais de países como os EUA ou França. Precisa ser redescoberto.
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120 anos de República e seus golpes


Marechal Deodoro da Fonseca
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120 ANOS DE REPÚBLICA E SEUS GOLPES
Publicado no Jornal do Commercio, Recife, em 15.11.2009
Ao longo da história da República, quase quatro décadas foram vividas em regimes de exceção. Golpes começaram com a própria proclamação.
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Sérgio Montenegro Filho
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A história da República no Brasil é mais acidentada que a do Império e sua origem guarda muitas semelhanças com períodos vividos recentemente. Ao longo dos 120 anos de República – comemorados hoje, com solenidades e festas por todo o País –, quase quatro décadas foram vividas dentro de regimes de exceção, com ditaduras militares ou civis. De Getúlio Vargas e o Estado Novo (1937-1945), ao golpe militar de 1964, a chamada República Nova, iniciada com a Revolução de 1930 é a mais tumultuada em termos de privação das liberdades civis.
O histórico de golpes no País, porém, começou com a própria proclamação da República, pelo marechal Deodoro da Fonseca, em 15 de novembro de 1889. “Foi o primeiro golpe militar da nossa história. Não havia justificativas populares para a saída do imperador. O argumento utilizado pelos republicanos foi simplesmente um ataque à honra do Exército”, afirma a professora Socorro Ferraz, do Mestrado em História da Universidade Federal de Pernambuco. Ela diz que a população assistiu a todo o processo “bestializado”, sem tomar parte. Sobretudo por estar acostumada com a “calmaria política” do período de regência de Dom Pedro II. “O imperador governou o País por 49 anos, sem muitos percalços. O golpe que gerou a República foi inesperado”, diz Socorro Ferraz.
De fato, na noite de 9 de novembro, apenas seis dias antes, houve o famoso Baile da Ilha Fiscal, no centro histórico da capital, Rio de Janeiro, reunindo três mil pessoas com a família real. Historiadores afirmam que, no baile, os cortesãos dançavam sobre um vulcão, já que na mesma noite os republicanos se reuniam no Clube Militar, presididos pelo tenente-coronel Benjamin Constant, para tramar a queda do Império. O argumento: “Tirar a classe militar de um estado de coisas incompatível com sua honra e sua dignidade”.
Esse eterno clima de golpe perduraria durante praticamente um século de República, com interrupções do estado democrático de direito. Mas da mesma forma que o golpe militar de 1964 implantou no Brasil o mais longo dos regimes de exceção, a distensão iniciada em 1985, com a eleição indireta de Tancredo Neves, marcou o início do maior período de abertura democrática, a chamada Nova República. “É o período mais longo e mais maduro de democracia. Mas não é ainda a maturidade desejada”, acrescenta Socorro Ferraz.
Segundo ela, embora tenha ido às ruas lutar pela redemocratização, que culminou com a escolha do presidente da República pelo voto direto, a sociedade está cada vez menos politizada. “De 1989 até hoje não se construiu uma formação política sólida da sociedade e o processo de globalização colaborou para fragilizar ainda mais a cultura política”, justifica.
De fato, mesmo com toda a liberdade de hoje, nesses 120 anos de República, há quem ainda considere “estranho” alguém militar num partido político, ou ir às ruas em passeatas e comícios por um candidato. “A organização partidária não se consolidou. Cabia aos próprios políticos, depois da eleição de 1989, a responsabilidade de reforçar essa cultura, cuja fragilidade permitiu o surgimento de fenômenos como Fernando Collor de Mello”, conclui Socorro Ferraz.
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O Cristianismo rebelde


O CRISTIANISMO REBELDE

Inácio Strieder

Quando o cristianismo entrou na civilização greco-romana ele transformou as relações humanas. Os seres humanos já não deveriam mais ser valorizados por serem homens ou mulheres, livres ou escravos, romanos ou bárbaros, pobres ou ricos, saudáveis ou doentes, brancos ou negros, cultos ou ignorantes. Os princípios básicos para a convivência da humanidade seriam: a fraternidade, a solidariedade e a liberdade de todos como filhos de Deus, criados à imagem e semelhança da divindade. Com estes princípios, o cristianismo se manifestava como uma proposta de vida unificadora, que religava os homens entre si e com um único Ser supremo de forma inovadora. Isto era muito diferente da quase totalidade das outras religiões, que, através de múltiplos cerimoniais e cultos mágicos, tentavam religar os homens a múltiplas divindades e entidades legitimadoras de discriminações e opressões.Os testemunhos históricos, de fato, atestam que, durante os primeiros séculos de nossa Era, o exercício do cristianismo não consistia predominantemente em cultuar a Deus, mas em viver concretamente a mensagem de Jesus Cristo. Desta forma, o cristianismo entrou no mundo pagão como uma religião de vida, e não como uma religião de culto. Os pagãos não declaravam: "Vede, como é grande e maravilhoso o Deus dos cristãos", mas "vede como eles se amam". E os "Atos dos Apóstolos", um dos escritos fundamentais do Novo Testamento, declara que, nas primeiras comunidades cristãs, não havia necessitados, todos punham os seus bens à disposição de todos.Infelizmente, no decorrer dos séculos, em diversos momentos, esta característica do cristianismo, como religião de vida, foi encoberta pelo cristianismo como religião cultual. Felizmente, em meados do século XX muitos cristãos corresponderam ao apelo interior de retornar ao espírito das primeiras comunidades cristãs, destacando o essencial do cristianismo como religião de vida. Era preciso superar a religião mágica, puramente sacramental e cultual, que permitia conivências criminosas de cristãos com guerras, escravidão, injustiças e opressões múltiplas. Já não era compreensível que os cristãos compactuassem com as injustiças, com a miséria e a degradação do ser humano. De acordo com este novo espírito, O Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II. Neste mesmo espírito, na América Latina desenvolveram- se diversos movimentos como a Juventude Operária Católica (JOC), a Juventude Universitária Católica (JUC), a Juventude Estudantil Católica (JEC), a Educação de Base (MEB), movimentos em favor da Reforma Agrária, Comunidades de Base, a Teologia da Libertação, a Teologia da Enxada, etc. Era a recuperação do cristianismo fraterno, solidário de liberdade. Uma espécie de rebeldia contra as atitudes farisaicas de um cristianismo puramente de culto, insensível perante o drama da penúria humana. Entre estes cristãos conscientes e engajados alguns perderam a paciência, e queriam uma transformação rápida, revolucionária. Na Colômbia, Camilo Torres, um sacerdote vindo da classe média alta, não confiou mais em mudanças pacíficas, e entrou na guerrilha, morrendo em 1966, durante o primeiro confronto com o exército. Mas este não era o caminho. Cristo propõe uma vida cristã de amor e não de violência, de ódio e de morte. O ideal cristão é a "não-violência ativa". Foi isto que propôs Dom Helder Câmara, e que predominou na reunião dos bispos latino-americanos em Medellín, em 1968. E esta "vida ativa" é o ideal dos cristãos de sempre. E, por causa deste ideal, os cristãos de hoje, mais preocupados com a fidelidade ao Evangelho, devem mostrar sua rebeldia frente a um cristianismo "ópio do povo", alienante, puramente devocional, conivente com a estruturas de injustiça no mundo, que, parece, novamente estar mostrando seus tentáculos em vários ambientes.
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Publicado no Jornal do Commercio, Recife, 04/7/2006.
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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Jogadores são apedrejados na implantação do futebol


Guilherme de Aquino Fonseca

HISTÓRIA DO FUTEBOL EM PERNAMBUCO - Capítulo 1

JOGADORES SÃO APEDREJADOS NA IMPLANTAÇÃO DO FUTEBOL

Givanildo Alves

A história do futebol em Pernambuco, nos seus primórdios, em quase nada difere de outros estados do Brasil. Se em São Paulo, Rio de Janeiro ou Bahia, por exemplo, ele foi introduzido por brasileiros que estudaram na Europa, como foi o caso de Charles Miller (São Paulo), Oscar Cox (Rio de Janeiro) e José Ferreira Filho (Bahia), para aqui ele também chegou, em fins de 1903, pelas mãos de um brasileiro que se educou na Inglaterra: o pernambucano Guilherme de Aquino Fonseca.
Fascinado pelo espírito esportivo dos estudantes do Hooton Lown School, onde havia passado cinco anos especializando-se no conhecimento do idioma, por imposição do seu pai, João de Aquino Fonseca, Guilherme não esqueceu de trazer, na sua volta ao Recife, uma bola, meiões, chuteiras, camisas e outros apretechos para jogos de cricket, rugby e tênis, porquanto sua idéia não era somente a de inocular no recifense o vírus do futebol "association", mas também o de fundar um clube.
A população do Recife era praticamente a mesma do último recenseamento feito em 1900, isto é, 113.106 habitantes. Segundo o historiador Leonardo Dantas Silva, no seu "Recife, uma história de quatro séculos", a cidade de então possuía 245 ruas, 29 praças, 215 travessas e 67 becos. Havia 17.147 prédios, dos quais 16.595 habitáveis; 169 em construção e 383 em ruínas. Os aluguéis variavam entre 10 mil réis e 1 conto de réias.
A vida social, econômica e cultural da cidade sofria acentuada influência britãnica, pois estavam nas mãos nem sempre hábeis do "mister" os meios mais importantes de que dependia a população, como transporte, comunicação e comércio. Esta predominância já vinha de longe, conforme nos dá conta o sociológo Gilberto Freyre, na sua monumental obra "Ingleses no Brasil": - Na verdade, desde os começos do século passado que o Recife tornou-se um dos focos mais intensos de irradiação de influência britânica no Brasil, através de considerável grupos de negociantes ingleses que ali se estabeleceram depois da abertura dos portos, alguns com suas famílias.
Peço desculpas aos amantes do futebol pelas pequenas digressões, mas como bem disse o professor João Lyra Filho, no prefácio do nosso livro, "não é possível empreender-se obra sobre a história do futebol sem o estudo sociológico do meio que o tenha influenciado". Agora, vamos direto ao assunto.
No Recife do alvorecer do século XX, apenas dois clubes existiam: Internacional e Náutico. O primeiro, que se originara de um clube de regatas, estava praticamente sem vida esportiva, abrindo suas portas unicamente para bailes e jogos de cartas, muito em voga naquele tempo, enquanto a agremiação alvirrubra, fundada desde 1901, raramente promovia competições, porque não tinha concorrentes em esportes aquáticos, sua única atividade.
O desânimo da juventude pelos esportes era tão patente, que até mesmo turfe, considerado no século XIX como o esporte de maior atração popular, já não vinha mais provocando grande entusiasmo. E tanto isso é verdade que, dos três prados que existiam - Derby Club, Hipódromo e Pernambucano - apenas este último, o atual Jóquei Clube de Pernambuco, no Prado, continuava (e continua) de pé.
Como se vê, não é difícil advinhar as dificuldades encontradas por Guilherme de Aquino Fonseca para iniciar o então chamado "esporte bretão" entre nós. Os poucos brasileiros educados na Europa, como ele, que conheciam e já haviam praticado o futebol, recusavam-se em auxiliá-lo, uns porque os pais não consentiam, outros porque os preceitos sociais dominantes repudiavam, e até se achava ridículo um homem de calção correndo atrás de uma bola. Ele chegou a ter vários entendimentos com os dirigentes do Náutico, tentando convencê-los a aderirem ao futebol, mas sempre se deparava com um grupo contrário que, tendo à frente o influente Bento Magalhães, recusava seus esforços, sob o argumento de que o Náutico era destinado exclusivamente à prática dos esportes aquáticos e que, além disso, o futebol não era esporte e, sim, troca de pontapés.
Guilherme não desanimou. Recorreu então aos ingleses, funcionários das companhias britânicas aqui instaladas, que nos fins de semana costumavam bater bola nos espaçosos quintais das suas residências noss subúrbios. De porte fidalgo, falando fluentemente o inglês, não lhe foi difícil aproximar-se dos britãnicos, gesto seguido pouco tempo depois por outros rapazes de famílias ricas que passaram a engrossar a fileira dos adeptos ao futebol. Era o Sport em formação embrionária.
Como "ensaios", com quadros ainda incompletos, alguns jogos foram realizados em campo improvisado na campina do Derbi. Os moleques da redondeza gozavam o "espetáculo" que, para eles, não passava de um grupo de malucos correndo atrás de uma bola. Guilherme viria a dizer, muitos anos depois, que ele e seu grupo chegaram até a ser apedrejados pelos moleques, boquiabertos e de olhos rútilos ante à insólita cena.

Fonte: Diário de Pernambuco, Recife, segunda feira, 03.06.1995, pág. B-2.